2019

Carajás Niemeyer

pesquisa, instalação multimedia e reconstrução digital

português

2008 – contínuo / não realizado

o ato de destruir, assim como o ato de construir, sob o signo to "patrimônio." que memória a destruição/apagamento comemora? 

In 2008 I took a 24-hours bus ride from Brasilia to Marabá, a city situated at eastern margins of the Amazon Basin, in the south of the state of Pará, Brazil. I was searching for the remains of a sculpture made by architect Oscar Niemeyer to commemorate the death of nineteen members of the Landless Workers Movement --- Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) --- who were killed on the 17th of April of 1996 during a bloody assault launched by the military state police against thousands of peasants occupying a vicinal road linking Marabá to Eldorado dos Carajás, a smaller frontier town situated one hundred kilometers westwards. This was not an isolated episode. One year earlier, twelve other people died in similar circumstances at the other end of the Amazon basin, in the city of Corumbiara, state of Rondônia. Situated at the southern fringes of the forest, these areas are part of what in Brazil is known as the “arch of fire”, a semi-circular slash-and-burn frontier line that engulfs the Amazon from the southeast to the northwest. Here land-property has been historically produced through enclosures and tempered by state or private violence, a process which has generated a destructive territorial economy organized according to a vicious chain of land-grab, extraction of valuable wood, fire, extensive cattle farming / land speculation, introduction of industrial soya production. This frontier-landscape is not only deserted and extremely hot, but also mostly idle, formed by vast unproductive fields of ecological depletion, underused use-value and concentrated ownership. In the mid 90s, as discontent over the IMF-infused process of land regularization/privatization gained momentum, the MST intensified urban mobilizations and rural occupations, which were responded to with increasing police repression. The “Carajás Massacre”, as this event came to be known, became particularly symbolic, even more so because of the sensitive history of this zone, which during the military regime in the 70s was permeated by conflicts and eventually put under direct occupation of the army.

 

 

 

Em 2008, fiz uma viagem de 24 horas de ônibus de Brasília a Marabá, cidade situada na margem leste da Bacia Amazônica no sul do estado do Pará, Brasil. Procurava os resquícios de uma escultura do arquiteto Oscar Niemeyer para celebrar a morte dos dezenove membros do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) que foram assassinados em 17 de abril de 1996 durante um ataque sangrento pela política militar estadual contra milhares de camponeses que ocupavam uma estrada vicinal entre Marabá e Eldorado dos Carajás, cidade menor de fronteira, situada cem quilômetros a oeste. Este não foi um episódio isolado. Um ano antes, doze outras pessoas morreram em circunstâncias semelhantes do outro lado da Bacia Amazônica, na cidade de Corumbiara, estado de Rondônia. Situada na margem sul da floresta, estas áreas fazem parte do que no Brasil se conhece como “arco de fogo”, uma linha de fronteira semicircular de corte e queima que abrange a Amazônia do sudoeste ao noroeste. Neste local, latifúndios foram historicamente produzidos por meio de enclosures e marcados por violência estatal e/ou privada, processo que gerou uma economia territorial destrutiva organizada de acordo com um círculo vicioso de grilagem de terras, extração de madeiras valiosas, incêndios, pecuária extensiva/especulação de terras, introdução da produção de soja industrial. Esta paisagem de fronteira não apenas é deserta e extremamente quente, como também na maior parte ociosa, formada por vastos campos improdutivos, esgotamento ecológico, valor de uso subaproveitado e propriedade concentrada. Em meados da década de 90, enquanto crescia o descontentamento com o processo infundido pelo FMI de regularização/privatização de terras, o MST intensificava as mobilizações urbanas e ocupações rurais, que eram combatidas com uma crescente repressão policial. O “Massacre de Carajás” tornou-se particularmente simbólico, ainda mais devido ao histórico significativo desta zona que, durante o regime militar na década de 70 foi permeada por conflitos e acabou sendo posta sob a ocupação direta do exército.

 

The monument was designed by Niemeyer in Rio de Janeiro and then built out of concrete in Brasilia, from where it was taken on a national pilgrimage organized by the MST across the Belém-Brasília highway, the main artery connecting the capital to the port-city of Belém at the delta of the Amazon River. Along the way, it stopped in small cities and at different encampments of the landless movement for rituals of mourning and remembering, until finally being placed at the centre of the large roundabout that connects with the Trans-Amazonica highway, at the edge of the urban nucleus of Marabá, the largest city of the region. Few days after its arrival, the monument was destroyed. Izabel Lopez, the wife of a victim and leader of the Settlement 17th of April, a cooperative formed in the land concession granted by the government after the massacre, says that Niemeyer’s sculpture was torn apart late at night by steel wires pulled from three or four trucks and tractors at the command of the powerful local agrarian elites. The local government later replaced the remains of the sculpture with a lamppost. 

 

O monumento foi projetado por Niemeyer no Rio de Janeiro e então construído em concreto em Brasília, de onde foi levado em uma peregrinação nacional organizada pelo MST ao longo da estrada Belém-Brasília, principal artéria que conecta a capital à cidade portuária de Belém no delta do Amazonas. Durante o caminho, parou em pequenas cidades e em diferentes acampamentos do movimento dos sem-terra para rituais de luto e memória, até que finalmente o monumento foi colocado no centro de uma grande rotatória que se conecta com a Rodovia Transamazônica, nas extremidades do núcleo urbano de Marabá, a maior cidade da região. Poucos dias após a chegada, o monumento foi destruído. Izabel Lopez, esposa de uma das vítimas e líder do Assentamento 17 de Abril, cooperativa formada na concessão de terras cedidas pelo governo após o massacre, diz que a escultura de Niemeyer foi destruída tarde da noite por fios de aço puxados por três ou quatro caminhões e tratores sob o comando das poderosas elites agrárias locais. O governo local posteriormente substituiu os destroços da escultura com um poste gigante.

 

My trip followed the steps that the monument had traced through the Belém-Brasília highway, otherwise known as BR-010. One of the most emblematic projects of the national-developmental rationale initiated alongside the modernistic rhetoric of Brasilia, this highway has since been a structural spine of territorial conflicts in the Amazon. The first bulldozers that started to carve the route in 1955 concluded the process of pacification and removal of the Karajá people from that area. In the 60s and 70s, while Brazil was under military rule, the BR-010 channeled many of the state-initiated modernizing schemes together with massive investments of transnational capital, especially towards the extensive mineral deposits under the Carajás Hills, an elevated topographic formation located to the west of the highway, just south of Marabá. Practically the entire zone was expropriated and placed under direct control of the federal government. The implementation of large-scale projects such as hydroelectric dams, heavy-mining facilities, industrial cattle-ranches and monoculture farms triggered an unparalleled process of land-grab, forcing the small peasantry and indigenous communities that inhabited the area to flee their lands. Deforestation and mining-frontiers were followed by thousands who migrated either by necessity, in search of land and the natural wealth that the forest provides, or by force through army-mediated programs of agricultural colonization. The rapid and intense processes of modernization that penetrated through the BR-010 completely reconfigured the patterns of land use and appropriation in an area that had thus far been ‘unlegislated’. Deployed by a militarized police state, this process was historically characterized by dispossession and concentration of landownership, and over the years has nurtured a culture of violence and impunity that remains dominant in the region of Carajás.

Minha viagem seguiu os passos que o monumento havia traçado pela Belém-Brasília, conhecida também como BR-010. Um dos projetos mais emblemáticos da lógica desenvolvimentista iniciada juntamente com a retórica modernista de Brasília, esta rodovia desde então se tornou uma coluna estrutural dos conflitos territoriais na Amazônia. Os primeiros tratores que começaram a cavar a estrada em 1955 concluíram o processo de pacificação e remoção das comunidades indígenas Carajás da área. Nos anos 60 e 70, enquanto o Brasil estava sob o regime militar, a BR-010 canalizava muitos dos planos de modernização iniciados pelo estado juntamente com investimentos maciços de capital transnacional, especialmente em direção aos depósitos intensivos de minerais sob as Serras dos Carajás, formação topográfica elevada a oeste da rodovia situada ao sul de Marabá. Praticamente a zona inteira foi desapropriada e colocada sob o controle direto do governo federal. A implementação de projetos de grande escala como as usinas hidrelétricas, instalações de mineração pesada, fazendas industriais de gado e de monocultura originaram um processo inédito de grilagem de terras, obrigando os pequenos camponeses e comunidades indígenas que habitavam a área a abandonar suas terras. O desmatamento e as fronteiras de mineração foram seguidos por milhares de pessoas que migraram, seja por necessidade em busca de terras e a riqueza natural que a floresta proporciona ou à força, por programas de colonização agrícola mediados pelo exército. Os rápidos e intensos processos de modernização que penetraram pela BR-010 reconfiguraram completamente os modelos de uso e apropriação da terra em uma área que até então era ‘não legislada’. Desenvolvido pela polícia militar estadual, este processo foi historicamente caracterizado pela desapropriação e concentração da propriedade das terras e ao longo dos anos nutriu uma cultura de violência e impunidade que permanece dominante na região de Carajás.